No sábado, 10 de outubro de 2026, o projeto “Eu Rio, Vivo!”, em parceria com o Instituto Rios e Ruas, caminhou, escutou e sentiu o Rio Anhumas entre os carros e as avenidas Orosimbo Maia e José de Sousa Campos, na região central de Campinas. Em meio ao movimento da cidade, a expedição foi um convite a reconhecer um rio que segue seu curso, mesmo quando quase não o enxergamos.
A atividade foi organizada em dois momentos. O primeiro aconteceu na ETEC Bento Quirino, onde nos reunimos para uma conversa com José Bueno, fundador do Instituto Rios e Ruas. Ele compartilhou um pouco de sua trajetória e da história do instituto, que surgiu a partir de cafés e conversas entre um arquiteto urbanista e um geógrafo. Os dois tiveram a ideia de olhar para aquilo que corria por baixo das ruas de São Paulo: as águas dos rios, apertadas e retificadas sob o asfalto, que voltam a aparecer sempre que encontram algum respiro.
A partir dessa descoberta, José Bueno e Luiz de Campos iniciaram uma jornada de reconexão com as águas que atravessam a cidade de pedra. Afinal, quantos rios existem sob nossos pés, mesmo quando já não conseguimos reconhecê-los na paisagem urbana?
A pergunta que guiou nossa conversa foi: “Quem é seu rio?” A partir dela, muitas outras surgiram: quantos de nós conseguimos dizer o nome do rio que atravessa nosso território? Onde ele está? Quais histórias carrega consigo?
Esse primeiro momento, de relembrar a presença dos rios em nossas vidas, nos convidou a imaginar novamente o lugar onde vivemos. Foi esse exercício que conduziu nosso percurso pelas margens do Rio Anhumas.
Durante a conversa, Zé Bueno compartilhou a história do Rio Iquiririm, que recebeu esse nome a partir de um afloramento na Rua Iquiririm, na Vila Indiana, em São Paulo. De origem tupi, o nome significa “rio silencioso”. Na narrativa de Zé, o rio se autonomeou e teve a delicadeza de contar seu nome àqueles desbravadores de águas.
A história abriu espaço para uma reflexão sobre os nomes que damos aos lugares e as formas como usamos as palavras para organizar, reconhecer e definir nossos territórios. Nomear um rio também é uma maneira de reconhecer sua existência e sua presença na vida da cidade.
Ao longo da conversa, Zé Bueno relacionou experiências vividas em São Paulo com outras que acontecem em Campinas, como os blocos de Carnaval que celebram os cursos d’água. Em Barão Geraldo, por exemplo, temos o bloco Ribeirão das Pedras, que também nos lembra que os rios fazem parte da cultura, da memória e da ocupação dos territórios.
Depois, voltamos nosso olhar para o próprio Anhumas, o rio que acompanharíamos durante a expedição. As histórias dos participantes vieram à tona: lembranças de quem trabalhou às suas margens e conheceu um rio diferente daquele que se apresenta hoje; memórias familiares de tempos em que a relação com os corpos d’água era outra.
Ao mesmo tempo, reconhecemos como muitos de nós passamos a enxergar o rio: uma canaleta destinada a receber água e resíduos, um problema a ser resolvido porque atravessa importantes avenidas de Campinas. Mas o que esse olhar de sentença diz sobre o rio? E o que revela sobre o processo histórico de construção da cidade?
Em seguida, fomos às ruas para conhecer um pouco mais do Anhumas.
Caminhamos por cerca de uma hora e meia, passando por três pontos principais de observação. A primeira parada aconteceu na Avenida Orosimbo Maia, nas proximidades do número 2.286. Ali, uma pergunta orientou nosso olhar: “Quem já esteve parado aqui neste ponto?”
Apenas Luciana, voluntária do programa Observando os Rios, da SOS Mata Atlântica, conhecia aquele lugar como ponto de coleta para o monitoramento da qualidade da água. Para as demais pessoas, talvez fosse apenas mais um trecho da avenida, atravessado pelo trânsito cotidiano.
A partir daí, surgiu outra pergunta: “O que é um rio poluído?”
Entre as primeiras respostas apareceram o lixo no leito, o mau cheiro e a ausência de vida. Mas a conversa nos levou além desses sinais visíveis. Percebemos que refletir sobre a poluição também exige pensar em como enxergamos e compreendemos os rios, nas relações que estabelecemos com eles e nas responsabilidades que assumimos — ou deixamos de assumir — diante de sua degradação.
Seguimos caminhando. Em outro trecho, encontramos um playground vazio, cujo acesso era dificultado pelo corte da avenida. Mais ao fundo, porém, outras formas de ocupar e perceber aquele espaço se revelavam: um pequeno jardim florido e um lugar que havia sido apropriado por uma pessoa para viver.
Em meio a uma paisagem marcada pelo trânsito e por estruturas que parecem afastar as pessoas da natureza, essas pequenas presenças também contam histórias. Elas contrariam a lógica de um espaço organizado apenas para a circulação dos carros e nos lembram que a cidade é feita de diferentes formas de habitar, cuidar e existir.
A cada passo, encontrávamos menos pessoas e mais carros. As lojas de automóveis também marcavam a paisagem, revelando as prioridades inscritas naquele espaço. Foi então que Zé Bueno lançou outra provocação: “Onde estão as pessoas no sábado à tarde? As pessoas ocupam as ruas?”
Ao observar o entorno, percebemos como a produção do espaço urbano se manifesta nos detalhes: calçadas estreitas e quebradas, trechos sem calçamento, poucas faixas de pedestres e carros luxuosos cortando as avenidas.
Como podemos exercer nosso direito à cidade e reconhecer os rios que atravessam nossos territórios se, muitas vezes, mal conseguimos acessar suas margens?
Durante o percurso, também reservamos um momento para recolher resíduos encontrados nas margens do ribeirão. A maior parte era composta por pequenos materiais descartados no cotidiano, além de resíduos de campanha política que haviam ido parar ali. Em apenas um trecho, recolhemos um saco de 50 litros.
A caminhada, assim, também se tornou um gesto concreto de cuidado. Ao observar o rio de perto, percebemos não apenas sua presença, mas também as marcas que deixamos em suas margens.
No terceiro e último ponto, chegamos a uma praça onde o ribeirão corre livremente, compondo uma paisagem que contrasta com os trechos anteriores. Ali, fizemos nossa roda de conversa de encerramento.
Zé Bueno compartilhou a história da criação do Whatságua, uma rede de comunicação entre rios. Para apresentar a proposta, mostrou um pote de água no qual poderíamos gravar uma mensagem e direcioná-la aos rios. Eles, bons fofoqueiros, espalhariam as mensagens por toda a sua rede, levando-as de um curso d’água a outro, por toda a bacia hidrográfica.
E então tivemos o prazer de enviar nossas próprias mensagens aos rios.
O que diríamos a eles se pudéssemos conversar diretamente com as águas que atravessam nossas cidades? Que histórias gostaríamos de contar? Que pedidos faríamos? E o que será que os rios teriam a nos dizer?
Talvez reconhecer um rio comece justamente aí: em aprender a percebê-lo, conhecer seu nome, escutar suas histórias e compreender que ele não é apenas um obstáculo na paisagem urbana, mas parte viva do território que habitamos.
E você, qual mensagem enviaria aos rios?
“Alô Tietê, Água Preta, Iquiririm…”
— Luiza Lian, Iarinhas
Para continuar a expedição
Quer conhecer um pouco mais sobre os rios e as histórias que atravessam Campinas e São Paulo? Confira os materiais abaixo.
Música — “Iarinhas”, de Luiza Lian
Canção relacionada ao projeto Rios e Ruas, que inspira outras formas de escutar e imaginar as águas urbanas.
Ouça “Iarinhas”, de Luiza Lian, no YouTube
Curta-metragem — “Anhumas: a voz de um rio”
Produção audiovisual realizada como trabalho final da disciplina de extensão Questão agrária, ambiente e multimeio, oferecida pelo Laboratório Terramae/Nepam, da Unicamp.



