Restauração ecológica como prática socioambiental: perfil, motivações e engajamento de voluntários na APA de Campinas (SP)

Isabela Kojin Peres

Criado em 2022, o projeto Reflorestadores Voluntários já realizou quatro edições, mobilizando cerca de 200 pessoas e promovendo o plantio de aproximadamente 750 mudas nativas na região da APA Campinas. 

Em 2026, a iniciativa passou a integrar o projeto mais amplo “Eu rio, vivo – Comunicação e educação em defesa do rio Atibaia”. Nas 4 edições foram plantadas XXX mudas em XXX metros quadrados em 4 propriedades rurais diferentes, todas localizadas no entorno da Mata Ribeirão Cachoeira, o maior e mais biodiverso fragmento florestal da APA de Campinas – a qual a APAVIVA tem lutado para que se torne uma Unidade de Conservação.

A dinâmica das edições analisadas organiza-se como uma jornada coletiva que articula convivência, aprendizagem e ação prática. O encontro inicia-se com um café da manhã coletivo colaborativo, seguido de boas-vindas e apresentação da iniciativa e do território. Em seguida, realiza-se uma caminhada até o local do plantio, favorecendo o reconhecimento da área e a contextualização ecológica.

 

No campo, os participantes são organizados em frentes de trabalho, com divisão em grupos e orientação técnica, dando início às atividades de plantio (abertura de berços, manejo de mudas, plantio, irrigação, coleta de resíduos etc.). Após a finalização do plantio, é feito o retorno à sede da APAVIVA, onde são realizadas avaliação coletiva e o encerramento, com mais comidinhas. 

Essa estrutura evidencia que a experiência não se restringe ao plantio, configurando-se como um processo que combina socialização, educação ambiental situada e trabalho coletivo. A organização em etapas favorece a integração entre participantes com diferentes níveis de experiência, permitindo aprendizagem prática, troca de conhecimentos e construção de vínculos.

A partir das respostas dos formulários de inscrição, analisei o perfil, as motivações, expectativas e experiências dos participantes de 4 de intervenções de reflorestamento realizados na APA de Campinas (SP), buscando compreender como a participação social se configura na prática da restauração florestal em um contexto bastante urbanizado.

Como a vivência acontece aos domingos de manhã, perguntamos o que motiva as pessoas a participarem. E as respostas estão relacionadas ao 

  • Desejo de proteger, cuidar e estar em conexão com a natureza
  • Valores e senso ético ligado à necessidade de agir diante o cenário de crises e avanço da degradação “fazer a minha parte”, “melhorar o mundo”, “responsabilidade com o planeta”.
  • Vontade de aprender e ter experiência prática
  • Questões afetivas-relacionais como “estar na natureza”, “amor”, “conexão” , mas também “conhecer pessoas”, “fortalecer redes”, “trocar experiências” e “estar com pessoas com mesmo propósito”
  • Espiritualidade ecológica – citando a questão de Gaia. 
  • Institucional/instrumental ligado a créditos de extensão em disciplina e experiência para o currículo, demonstrando que nem todo engajamento começa “idealista”. 

As motivações, portanto, combinam dimensões ambientais, educativas, sociais e subjetivas, com predominância de um compromisso ético com a causa ambiental, associado ao desejo de ação prática.

Já as expectativas concentram-se no aprendizado prático, na participação direta nas atividades de plantio e na interação com outros participantes, indicando a busca por uma experiência coletiva, formativa e concreta. 

  1. Ação prática
    Plantio, abertura de berços, execução das atividades.
  2. Aprendizagem situada
    Aprender fazendo, com outros participantes e especialistas.
  3. Convivência e redes
    Conhecer pessoas, fortalecer coletivos.
  4. Experiência afetiva
    Conexão com a natureza, prazer, bem-estar.
  5. Transformação social
    Expectativas de continuidade, impacto e mobilização.

Assim, é possível observar um forte alinhamento entre motivações e expectativas.  O alinhamento entre esses elementos sugere que a iniciativa opera como um espaço híbrido de ação ecológica, formação e construção de redes, contribuindo não apenas para a restauração ambiental, mas também para o fortalecimento do engajamento socioambiental em nível local 

Em relação a idade, a distribuição etária indica predominância de adultos, com diversidade geracional:

  • 13 a 17 anos: 2 (~0,8%)
  • 18 a 34 anos: 101 (~39,8%)
  • 35 a 59 anos: 120 (~47,2%)
  • 60+: 28 (~11%)
  • Não informaram: 3 (~1,2%)

Com isso, percebemos que a iniciativa mobiliza predominantemente pessoas sem experiência prévia, mas com uma presença relevante de participantes já engajados. 

Das 254 participantes, 97 (aproximadamente 38%) relataram alguma experiência prévia em restauração ecológica ou ações correlatas. Entre esses, predominam vivências pontuais, como participação em mutirões de plantio, sendo minoritária a inserção em projetos estruturados.

O lado positivo é que eles participaram de ações de restauração junto a movimentos sociais, outras organizações ambientais, instituições acadêmicas e coletivos territoriais, compondo uma rede regional heterogênea de atores. 

E não pense que são apenas pessoas que atuam na área ambiental, não! Tivemos a presença simultânea de um núcleo técnico-ambiental e de participantes de múltiplos setores, o indica que o Reflorestadores Voluntários não se restringe a públicos especializados, configurando um espaço transversal de engajamento socioambiental.

Os 254 inscritos ocupam mais de 80 profissões diferentes, portanto, uma alta heterogeneidade. Para fins analíticos, as profissões foram agrupadas em macrocampos:

  •  Estudantes: 39 (~15,3%)
  • Campo ambiental/técnico (biólogos 16; engenheiros 12; técnicos 6; geógrafo; gestora ambiental; zootecnista; pesquisadores 4): ~40–45 participantes (~16–18%)
  • Educação (professores 10; pedagogos 3; educadora ambiental 2; educadora social 1): ~16
  • Saúde e bem-estar (médicos 6; psicólogas 6; fisioterapeutas 4; nutricionistas 4; terapeutas 3; outros): ~25+
  • Comunicação, cultura e economia criativa (artistas 4; designers 3; jornalistas 4; audiovisual/música/roteiro e afins): ~15+
  • Setor público e terceiro setor (funcionários públicos 8; gestor de entidade; presidente do CONDEMA; assistente social etc.): ~12+
  • Outros setores diversos (direito 5; administração 3; comércio/serviços variados, autônomos, agricultores, entre outros): ampla diversidade distribuída

A análise demonstra que iniciativas de restauração ecológica voluntária possuem papel estratégico não apenas na recuperação de ecossistemas, mas também na mobilização social e na construção de vínculos entre sociedade e natureza.

No contexto da Mata Atlântica, um dos biomas mais ameaçados do planeta, a ampliação da participação social emerge como elemento central para o sucesso de ações de restauração em larga escala. Iniciativas como a analisada contribuem para democratizar o acesso à prática da restauração, formando novos sujeitos ecológicos e fortalecendo redes territoriais.

reflorestadores 2022

 

 

reflorestadores 2026

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